A covardia que se esconde atrás do verbo

A liberdade, afirmou Lord Acton, não é o direito de fazer aquilo que queremos mas o direito de fazer aquilo que devemos. O direito de uma pessoa de expressar-se em liberdade é um aspecto importante em uma sociedade civilizada, mas não forma a sua essência indispensável. Um ideal regulador da verdade é necessário para garantir o fundamento onde um saudável diálogo possa suceder na arena pública, pois, como declara o teólogo católico Michael Novak, se queremos nos libertar de nossas ilusões e das nossas apreenssões falsas e superficiais, nós precisamos avançar em direção a luz da verdade, que é maior que nós.

 

 

Mas para evitar extrapolar a barreira da história e ser acusado de defeder o meu “pão-de-cada-dia” (apesar de nem sequer ganhar as migalhas-de-cada-dia como teólogo) gostaria de designar a mesma história como a “reguladora da verdade”, de tal maneira, que as evidências apresentadas em meu argumento (e não mitos politicamente construídos) possam a ser julgadas pelo leitor usando seu direito hermanêutico. Digo isso porque somos frequentemente expostos a opiniões de pessoas ou grupos que, com um suposto vasto conhecimento intelectual e julgando-se depositários da verdade, dão a graça de nos presentear com suas percepções como se fossem a verdade indiscutível. Vivemos em um mundo onde grupos de origem fundamentalistas liberais (principalmente de cunho feminista radical e homossexual) e seus aliados na imprensa e na indústria cinematográfica, defendem seus próprios interesses construindo falsas verdades, e as defendem contra qualquer pessoa ou instituição que se atreva a postular uma opinião diversa.

Nesta categoria exclusiva dos pesos pesados, so encontramos uma instituição universal capaz de reinvidicar para si a cólera dos fundamantalistas liberais: a igreja católica.  Peter Viereck afirmou corretamente que importunar católicos é o anti-semitismo dos liberais. E este preconceito anti-católico não é somente aceito mas tambem é difuso pela imprensa ocidental de forma orquestrada.

O professor de História e Religião na Universidade Estadual da Pensilvânia, Philip Jenkins, afirma que para atacar a igreja católica deve se construir primeiro uma estrutura consequente que permita que preconceitos contra a instituição sejam aceitos como fatos pelo população em geral. Geralmente essa estrutura é baseada no poder evocativo da inquisição, das crusadas e do “silêncio” durante o holocausto, como se qualquer pessoa “normal” devesse concordar com estas afirmações, e consequentemente responsabilizando católicos pela culpabilidade destes eventos. Mesmo que a relevância ou a exactidão de cada uma destas referências históricas ainda estar aberta ao debate, somente pelo fato de cita-las, transformam-as em verdades absolutas, sendo suficiente para representar a “autêntica” face do catolicismo romano. Uma vez construída a estrutura, o preconceito anti-católico pode ser justificado, incentivado e acima de tudo aceito sem nenhuma objeção. Aí se encontra o problema maior: a retórica anti-católica, o ataques a lideres e a doutrina católica, são aceitos como uma coisa normal.  Para ilustrar este ponto de vista nada melhor do que a divulgação sobre os casos de padres pedófilos nos meios de comunicação.

 

Nos últimos anos temos sidos confrontados quase que semanalmente com os casos de pedofilia involvendo sacerdotes católicos. A propaganda é tão omnipresente que quando encontramos um padre não podemos, injustamente, deixar de associar-lo a pedofilia. Recetemente, o “articulista” do Diário da Manhã/GO, Marcelo Caixeta em um de seus artigos (13/11/2007), seguiu esta retórica anti-católica e escreveu a seguinte frase: “….minha impressão, posso estar errado, é que a religião permite a florescência e o albergue de determinado tipo psicológico assim como na católica (religião) parece albergar a propensão a pedofilia”. Com um jogo de palavras, o leitor foi impudentemente induzido a falácia, pois em geral a mente do leitor é desatenta e viciada na retórica anti-católica de pseudojornalistas nos meios de comunicação. As palavras de Marcelo Caixeta que são claramente baseadas em um juízo de valor (..minha impressão, posso estar errado…), poderiam ser facilmente aceitas como se fossem de juízo objectivo, que ainda concederam o autor uma imunidade de responsabilidade, além de iseção de providenciar evidências críveis por suas insinuações. O uso da verbo “parecer” foi também muito leviano, principalmente devido a própria natureza do assunto em questão, pois a mais leve das sugestões de envolvimento com a pedofilia é capaz de assassinar moralmente e estigmatizar uma pessoa ou um grupo para o resto de suas vidas, destruindo-os. Ora médico Marcelo Caixeta, se parece é porque nao é. Como deve também o leitor entender o uso do verbo alberguar? Como um anfitrião que deliberadamente acolhe seu hóspede em casa sem estar consciente de sua personalidade ou em termos biológicos, mais precisamente, em uma relação simbiótica?

O problema é que estas palavras possuem um significado enganoso. Marcelo Caixeta fez o uso astuto das palavras, mas não o uso honesto, o mínimo que se exige para a credibilidade de um articulista. A semântica da língua portuguesa pode ter contribuído com uma certa imunidade para o autor desta covarde retórica anti-católica, mas não explica neste caso o porque da omissão de fatos importantes relacionadas com a parafilia (já que o mesmo é médico psiquiatra), que são extremamente importantes na análise das insinuações levianas e irresponsáveis de Marcelo Caixeta.  

Por isso a importância que a imprensa antes de sugerir a associação entre o clero católico e a pedofilia, deveria informar que, a etilogia desta parafilia é ainda desconhecida, e por isso deveria ser mais cuidadosa com as informações que publica. Deveria, por exemplo, diferenciar a pedofilia da pederastia, ambos horríveis manifestações de disordem sexual e moralmente deploráveis, mas com importância jurídica e psiquiatra muito diversas: as vítimas pertecem a idades de desenvolvimento diferentes assim como os criminosos (padres ou não) possuem características diferentes.

Deveria informar também que a maioria esmagadora de casos de abuso sexual de crianças ocorrem na esfera familiar ou em outros segmentos da sociedade, como na áreas da educação, assistência social ou na saúde, consequentemente, seria lógico argumentar que, por exemplo, familiares, vizinhos, professores, assistentes sociais e médicos proporcionalmente abusariam de criancas bem mais do que padres católicos. Outro fato interessante sempre omisso é que a pedofilia quase sempre se manifesta no sexo masculino, e como a igreja católica possue o maior numero de sacerdotes que qualquer outra denominação no mundo cristão, é lógico então concluir que o nível de incidência em termos absolutos deste crimes na igreja católica seria muito maior que nas outras denominações. É também conhecido que quase todos os vítimas de abuso sexual por sacerdotes católicos eram adolecentes do sexo masculino, cerca de 83% (Estudo comissionado pela Conferência Espiscocal dos Bispos Norte Americanos ao John Jay College of Criminal Justice, The City University of New York, 2002), indicando o carácter pederasta do crime (informação sempre omissa nos jornais). Isso implica que padres com tendências homofílicas (é importante frisar que nem todo homossexual seria por definição um pederastra) eram os maiores responsáveis por esses crimes bárbaro, o que não isenta a igreja católica de responsabilidade, muito pelo contrário, mas que exclui o celibato ou a religião católica como um fator fundamental na “florescência” da pedofilia, como insinuou irresponsavelmente o médico Marcelo Caixeta.  

O que ocorre é que estes homens com uma predisiposição para molestarem crianças são atraídos (não existem testes para detectar esses indivíduos na psiquiatria) para a vida em celibato com a esperança de poderem controlarem suas disordens sexuais, o que de fato não ocorre. Ou talvez, por pensarem que estariam camuflados e seguros pelo status social de um sacerdote, e consequentemente, livres para agirem em detrimento da criança ou do adolescente. Bispos em suas dioceses falharam grossamente na seleção de seminaristas ao negarem diversas diretrizes emitidas pelo Vaticano proibindo a seleção de candidatos homossexuais ao sacerdócio (a última intitulada, “Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao Seminário e às Ordens Sacras”, Vaticano, 2005). A Igreja tambem falhou como instituição ao ser leniente nas apurações destes crimes e consequentemente na punição dos criminosos, pois deveria ter colocado a vida dos jovens acima do cooperativismo sacerdotal. Infelizmente, devo concordar com Erasmus de Rotterdam (padre católico e humanista), que a mente de um homen é tal que ela é mais acessível a falsidade do que a verdade. Com isso, o preço é sempre pago pelos inocentes. Neste casos, padres celibatários e os jovens.  

 

Não existem provas que indiquem que as doutrinas e os ensinamentos católicos ou mesmo a vida em celibato, possam possivelmente “albergarem uma propensão” a pedofilia ou outra forma de parafilia. O que existe é que a retórica anti-católica esta tão enraizado em nossos meios de comunicações e acadêmico que geralmente achamos difícil examinar concientemente o que cada fato significa. Uma vez criada a conjectura anti-católica padres passam a serem vistos como molestadores de crianças, sendo considerados culpados até provada a inocência, resultado da falta de ética de pseudoarticulitas que falham em sua tarefa de serem intelectualmente independentes, como prova com extrema facilidade o médico Marcelo Caixeta. Como historiador, intelectual, escritor e um católico devoto em um país hostíl a sua fé, Lord Acton pronunciou seu famoso dictum “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente” referindo-se não a rainha da Inglaterra, como era de se esperar naqueles tempos de intolerância religiosa, mas ao próprio Papa Pius IX com sua doutrina da infabilidade, designando assim que o segredo da honestidade de um homen não se encontra na neutralidade intelectual de suas palavras, mas sim na independência intelectual de seu raciocínio. E o que carateriza um escritor independente, senhor Marcelo Caixeta, é quando ele se preocupa mais com o “porque” do que pelo o “como”.    

 

 

O devido lugar da Encíclica Papal na teologia moral

Na teologia social católica é importante definir claramente o que se entende por uma encíclica papal para evitar confusões, e consequentemente, erros. Geralmente falando, a tradição social católica tem como sua finalidade, apresentar aos homens os planos de Deus para a realidade secular. Ela focaliza-se especialmente no homem, enquanto este é envolvido em uma rede complexa dos relacionamentos dentro das sociedades modernas. O ensino social católico moderno tem sido articulado por uma tradição de documentos de pontífices, de concílios, e do episcopaliato que exploram e expressam as demandas sociais de nossa fé. Ela Contribuiu em construir uma cultura que valorizasse a dignidade da pessoa humana, e vê a comunidade como indispensavél para o florescimento humano, e procura a liberdade autêntica para a pessoa dentro da comunidade.

Mas você deve manter em mente que, encíclica são cartas (“Studia Moralia XIV”, S. O’Riordan, The teaching of the papal encyclicals as a source and norm of moral theology: a historical and analytical survey, 1976) e são dirigidas a pessoas concretas em situações históricas particulares. Encíclica ou outras declarações são (O’Riordan, 1976) interpretações autênticas da palavra de Deus nas circunstâncias históricas concretas que as evocam. Um pontífice percebe alguma necessidade comum na igreja ou no humanidade, ou em uma parte considerável de uma ou da outra, e escreve-lhes então uma carta pastoral útil.

Para adquirir um perspectivo melhor desta situação concreta, você deveria levar em consideração as percepções políticas do pontífice sobre os eventos que deram forma a história que, por sua vez, conduzem a necessidade de uma encíclica particular. Por exemplo, a encíclica Centesimus Annus (1991) deve ser analisada de acordo com a reflexão do papa Joao Paulo II sobre as conseqüências sociais, políticas e econômicas, em conseqüência de uma estrutura communista-socialismo na Europa do leste, desde que a vida de Joao Paulo II foi significativamente (e em sua totalidade se um for considerar o período do nazismo) formada pelo poder destrutivo de um sistema tirânico.

Além disso, encíclicas oferecem um ensino concreto e histórico em como os homens devem pensar e viver como cristãos, e não, um ensino estático meta-histórico. Se você mantiver a historicidade do ensino encíclico em perspectivo, você não tentará fixa-lo em qualquer momento (ignorando seu espírito e reduzindo-o a um precepto) de seu desenvolvimento. Isto porque ele é relacionado com o pontificado anterior mas também é aberto ao processo de desenvolvimento do ensino encíclico no futuro.

Conseqüentemente, o ensino social católico oficial não oferece uma teoria social particular, muito menos uma solução utópica para os problemas sociais do mundo. Nós podemos concluir que a luz e a ajuda espiritual proferida por um pontífice quando o mesmo escreve uma encíclica é oriunda da verdade do Evangelho que expressa, e esta verdade é expressada não somente com relação à situação que ele tenha em mente quando escreve mas também à base dessa situação, desde que de outra maneira, a verdade que deseja revelar não seria de nenhum valor constructivo para as pessoas que pretende ajudar.

A pessoa é perfectissimum ens

Em uma sociedade que se auto-denomina cristã e predominantemente católica, é extremanente importante que os católicos (e os não católicos por puro interesse intelectual) tenha acesso a certos conceitos para que possam adquirir um certo conhecimento básico que possibilitaria um debate mais profundo na definição do conceito da pessoa.

Eu estou consciente do fato que o pensamento evolucionário elimina a idéia de uma verdade metafisica além do observavél, do histórico. As perguntas a respeito dos seres humanos e de suas ações têm um elemento fundamental ético a-religioso na sociedade pós-moderna. As éticas de uma sociedade pós-moderna são baseadas em outros fundamentos, por exemplo, instinto de sobrevivência do ser humano e da espécie, e do conhecimento científico. Isto cría a impressão que a verdade é o que é imediatamente útil, o que benefecia o grupo. Desde que nada é verdadeiro, a razão define o que é bom, baseando-se em inferências sobre o momento atual e em suposições sobre o futuro. Tudo é mutável e sujeito a mudanças. É verdade que as circunstâncias mudam (críando em seu trajeto o ambiente perfeito para o corrupção e a manipulação), mas os fundamentos cristãos da vida não mudam. As éticas em si são frágeis, e seu conteúdo de moralidade e seu valores centrais, devem ser apoiados por um significado profundo e por uma verdade compreensiva. A questao da ética e muito mais do que apenas o que experiência humana pode envolver.

É de importância máxima a saber então, que o destino de um cristão é alcançado por uma verdade revelada e não por uma especulação filosófica. Nas palavras de santo Augustino: “Abençoados aqueles te conhecem, mesmo ele para não saber nada mais”. Isto é importante porque os erros que ocorrem quando definimos uma pessoa leva também a erros na maneira de uma pessoa agir. A discussão à respeito do homem e de suas ações com relação ao mundo é contingente na compreensão do homem, no significado de sua vida e em sua dignidade. Na fé católica (Gênesis 1:26-27 ) a pessoa humana sozinha é a imagem de Deus (doutrina da Imago Dei), e direcionado (” Summa Theologica”, I-II, 21, 4, ad.3.) diretamente a Deus como seu fim absoluto. A doutrina de Imago Dei constitui quase (“Communion and Stewardship: Human Persons Created in the Image of God”, 7, International Theological Commission, 2002, Vatican.) uma definição do homem: o mistério do homem não pode ser compreendido aparte do mistério do Deus.

Ao criticismo que os princípios éticos nuncam podem serem derivados da realidade metafisica, pode ser respondido pelo perspectivo, procedido da doutrina da Imago Dei, da pessoa como um agente moral e da pessoa como o objeto da ação humana. A pessoa é uma conseqüência da natureza teleological do homem: o homem deve perseguir seu próprio fim. O homem não é somente o “é” mas também aquilo que “está se tornando”, e não é indiferente a aquilo em que se transforma.

Na sua essência, o homem possui (“Communion and Stewardship: Human Persons Created in the Image of God”, 7, International Theological Commission, 2002, Vatican.) uma participação na lei divina. Esta lei natural orienta pessoas humanas à perseguir o bom em suas ações. Para transformar-se, o homem deve (Gaudium et Spes, 24, 16, Pope Paul VI, 1965) livremente fazer determinadas escolhas para conformar-se com o seu próprio fim: faz determinadas coisas e evita outras coisas simplesmente porque é um homem.

Aqui encontra-se o significado profundo das palavras de Gaudium et Spes, 24:O homem é a única criatura na terra que o Deus quis para sua própria causa”. Criado na imagem do Deus, os seres humanos supõem um lugar de guardião responsável, como o agente moral e como o objeto da ação humana, no universo físico.

Baseado na análise da realidade criada, Karol Wojtyla (“Person and Community”, pg.167, 1993) citando Thomas Aquinas afirma que no mundo criado, a pessoa é a perfeição mais elevada: a pessoa é perfectissimum ens, e sua perfeição é incontestávelmente o resultado de sua natureza racional e espiritual, que encontra seu complemento natural na liberdade. A pessoa, é conseqüentemente um ser racional e livre, capaz de todas aquelas atividades que a razão e a liberdade sozinho fazem possíveis. Se pode então supor que, uma tendência a perfeição forma uma parte constitutiva da existência humana. A fim de cumprir a tendência de sua perfeição, as ações de uma pessoa teriam implicações, não somente a pessoa em si, mas também à sociedade ao todo.

A pessoa como base para a ética.

 Na ala de embarque do aeroporto international de Guarulhos, ainda com uma forte dor no coração por estar, mais uma vez me separando das pessoas e do país que tanto amo, alcanço o jornal O Estado de São Paulo recém comprado. Leio que o ator Paulo Betti durante um jantar de apoio a Jose Dirceu, entre outros auto-nomeados intelectuais do partido dos trabalhadores, afirma todo seguro de si, que o mensalão era justificável pois, raciocina o inteletual petista, quem entra na política brasileira não tem como não sujar as mãos.  Esta declaração me revolta mas me trás a lembrança uma anedota entre teólogos, que diz que o caminho mais fácil de se perder a fé é estudar teologia. Situação análoga, creio eu, vive o cidadão brasileiro ao tentar aprender princípios básicos de ética na política brasileira.  Mas não vou usar minha revolta a respeito da falta de ética na política brasileira como um narcótico para me auto-convencer da minha superioridade moral. Poderia correr o risco de me embebedar com um paroxismo de imputações levianas da qual nehuma veracidade se exigiria. Este erro já foi cometido pelos que devidem o palanque com o senhor Paulo Betti.  

Me permitam, entranto, de postular uma linha de pensamento teológico, que creio eu, forneceria algumas ideas para a análise deste tópico. Entre as verdades do pensamento católico contemporâneo está a distinção entre o indivíduo e a pessoa. Refletindo sobre trabalho de Tomás de Aquinas, professor da igreja e santo católico, o filósofo católico francês Jacques Maritain (A pessoa e o bem comum, 1947) nos ensina que como indivíduo, cada um de nós é um fragmento de uma espécie, parte do universo, e sujeito ao determinismo do mundo físico ( com seu sistemas políticos e econômicos). Nos ensina também que como pessoa (considerando o grau de perfeição com qual esta pessoa com sua própria capacidade se aproxima­ de Deus) a criatura intelectual é capaz de uma bondade suprema, se aproxima mais da perfeição e da graça divina do que o universo em sua totalidade. Por isso sozinho, o ser humano foi criado a imagem de Deus. Todo o nosso ser existe na virtude da subsistência da alma espiritual, a qual é em nós um princípio de unidade criativa, de independência, de responsabilidade e de liberdade.  

 

Infelizmente, a compreemsão correta deste ensinamento é muito difícil de se alcançar e requere um exercício de visão metafisica na qual a mente contemporâneo é mal acostumada, como prova com extrema facilidade o intelectual petista, Paulo Betti.  

No entanto, Jacques Maritain declara categoricamente que cada um de nós é também uma pessoa e que a decadência ética é resultado da concepção materialística do mundo e da vida. Filosofias que não reconhecem os elementos espirituais e eterno no homen, afirma Jacques Maritain, não podem escapar de erros na construção de uma verdadeira sociedade humana. Isso ocorre simplismente porque as necessidades da pessoa não são satisfeitas, e por esse mesmo fato, estas filosofias materialisticas não entendem a natureza da sociedade.  Cego a realidade do espírito e respondendo somente a filosofias materialísticas o indivíduo Paulo Betti expressou a decadência ética na qual vive o Brasil. Esta situação de decadência ética trás consigo mais riscos para o conceito pessoa do que se possa imaginar.

Esta decadência põe em perigo a pessoa humana, explica Jacques Maritain, dissolvendo-a em anarquia ou simplismente como acontece inexoravelmente depois da pressão política de necessidades, submetendo-a ao desejo do sistema político-econômico regente, tranformando-a em um número, em um indivíduo. Nessa condição, a pessoa e forçada a transferir sua responsabilidade e o rumo de seu destino para o estado (leia-se elite política). Consequentemente a pessoa fica limitada em suas ações. A pessoa não oferece uma reação de imediato pois esta sobre a impressão que sua liberdade ainda não foi atingida. Naturalmente, que este senso de liberdade é uma ilusão. Ao mesmo tempo a pessoa irar exigir do estado a satisfação de suas cobiças e também rejeitará as condições da vida social de forma anárquica. Desta forma, conclui Jacques Maritain, a pessoa se isolaria em seu egoísmo ou em sua incapacidade de reagir em detrimento da sociedade como um todo. Assim in caminhos diversos, tudo que é próprio de um ser humano como uma pessoa e para a sociedade em que vive, é destruído. 

Jacques Maritain afirma que a sociedade sofre com erros do individualismo, da decadência política, e principalmete da falta de responsabilidade de cada um de nós. Nós testemunhamos o aparecimento de uma sociedade corrupta e com conceitos comunal exclusos que se desenvolvem através de reações e do egoísmo. Uma mudança radical é o desejo de mulheres e homens de bens em todo o nosso país.  

Mas não a este preço estabelecido por políticos charlatões que inundam as candidaturas partidárias atuais e por pseudo-intelectuais que se beneficiam da ignorância da maioria da população brasileira para expressar seus conceitos vazios. Esperamos sim, como postula Jacques Maritain, uma mudança através da integração sociológica de toda a consciência cívica, de virtudes políticas e um senso de liberdade e do direito, de prosperidade material e riqueza espiritual, de uma moral correta, de justiça e de responsabilidade pessoal nas ações individuais de membros na nossa sociedade. Estas coisas constituem, de uma certa forma, a vida das multidões. Não desejavamos somente um sistema de vantages e utilidades mas de um sistema planejado, responsável e bom em si mesmo, como diziam os anciões, bonum honestum 

Um sistema aonde virtudes como a justiça, a responsabilidade pessoal e a ética não se tornem vítimas, e sim, caraterísticas essenciais a serem assumidas, defendidas, integradas e colocadas em prática por brasileiros, mesmo que indivíduos como o intelectual petista Paulo Betti, não entederem a importância e a essência das mesmas no desenvolvimento da pessoa humana, e consequentemente, de uma nação.

O eufenismo liberal é o canto moderno da sereia.

Os fogos de artifícios iluminam o céu escuro comemorando a chegada do ano novo. Diante da janela da sala olhando em direção as águas do canal próximo entre as árvores defloradas e os flocos brancos de neve caindo, meu convidado parece se impressionar com o que vê. Com o sorriso lhe traindo, se encanta como se fosse um dos 40 sindicalistas “aloprados” no seu primeiro dia de poder no Palácio da Alvorada.
Vira-se, e com uma expressão de curiosidade ainda visível em seu rosto, faz um gesto me convidando a aproximar. Mesmo sem o poder da vidência tive um pressentimento muito forte de que não foi a beleza da neve, do canal ou dos fogos de artifícios que o levou a tal reação. E que, sobre as águas do canal perto de minha casa, encontra-se os barcos das prostitutas, cerca de 100 em todo, que em linha reta, formam uma vista que sem dúvida nenhuma impressionaria à qualquer pessoa, como prova a expressão facial do meu convidado. Atraído pelas luzes neon dos barcos, ele observa homens dentro de seus carros observando uma mulher semi-nua em movimentos sensuais, que por sua vez, observa com o estoicismo desenvolvido pela dura realidade de sua vida, o que a “liberdade” lhe oferece. Talvez traído pela inocência dos seus anos, ele se diz contente de poder estar em um país onde a “liberdade” seja onipresente.

Talvez por isso me pergunto se uma outra mulher, descrita intencionalmente como um símbolo maior da Liberdade, com uma educação clássica, armada com o conhecimento contra a neblina da paixão e a escuridão da ignorância, bem vestida, disciplinada, com objetivos claros e séria em aparência, provocaria a mesma reação em meu jovem convidado. Pois esta senhora Liberdade que o educação católico Michael Novak (comentando sobre o seu livro “The Hunger for Liberty”, 5/18/2005) descreve é primeiramente um atributo do espírito invariável, do intelecto, da luz da razão e consequentemente da ética. A ética por sua vez, afirma Novak, forma um elemento essencial da humanidade, que a todos interessa, pois é nela que o significado das questões, dos limites, das expectativas da vida se manifesta. E é exatamente nessas questões marginais da vida que corremos o risco de nos deixar ser manipulados pelo canto da sereia do eufemismo da elite fundamentalista “liberal” que, através de sua força sedutora e enganadora, anestesia as nossas percepções éticas, inibindo as nossas reações, fazendo nos sentir culpados por discordar, criando um ambiente onde tudo, repito, tudo faz parte do normal e do aceitável.

Para um exemplo prático de uma situação marginal, nada melhor que residir no país mais “liberal” do mundo: Holanda. Sobre o pretexto de garantir os “direitos humanos” (em si outro eufemismo) dos homossexuais, e utilizando o eufemismo “orientação sexual” como base, o parlamento holandês aprovou alguns anos atrás o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que me interessa aqui é a agenda oculta do eufemismo liberal, sua capacidade enganadora embutida em si, capaz de um mal maior do que primeiramente observado. E que, através de uma interpretação secundária desta mesma lei, os juízes holandeses garantiram aos pedófilos o direito de se organizarem politicamente. Hoje, a Holanda é o primeiro país no mundo com a vergonhosa (adjetivos mais adequados me falham nesse momento)  posição de ter um partido político (não representado no parlamento) cuja função única e exclusiva é a proteção dos “direitos humanos” de pedófilos de exercerem sua “orientação sexual”. Para uma pessoa de bom senso outro exemplo não seria necessário.

Por isso, onde a “liberdade” se torna o símbolo “eufêmico” maior das sociedades liberais, a Liberdade simplesmente não existe mais. Ela se tornou vítima da ausência de todas as restrições dentro da alma dos homens e mulheres livres. Esta ausência de restrições, afirma Novak, não é sinônimo de civilização, mas sim de barbarismo, e a liberdade que é internamente desorganizada não é liberdade, mas sim niilismo. A liberdade individual não significa libertinagem pois o nosso senso de moralidade não deve ser baseado no instinto animal de nossa espécie ou de distúrbios psicológicos, dependendo exclusivamente de circunstâncias variáveis, transformando-se em algo relativo. Em uma sociedade verdadeiramente livre a Liberdade é sobretudo uma idéia incorporada. Para Novak, a liberdade é baseada sobre um corpo de discernimentos, mas que não deve ser meramente comunicada através de conceitos abstratos, mas sim profundamente incorporada nos nossos próprios hábitos e experiências. Este corpo de discernimentos, afirma Novak, deve ser redescoberto em cada geração, sem coerção, pois é somente em um ambiente em que a escolha é possível é que os homens aprendem exercitar sua Liberdade em uma maneira responsável e dissipada através das instituições sociais como a família e as igrejas, que ensinam (ou deveriam pelo menos ensinar) e promovem os hábitos e as tradições da ação ética. Mas a ética por sua vez também precisa de um fundamento invariável, imutável que nos leve a plenitude de uma liberdade responsável. A questão da ética refere-se em sua vez a Verdade Absoluta: Deus. E é na importância dessa Verdade que o valor de todo ser humano vem inteiramente a ser apreciados, tornando-se verdadeiros filhos da Liberdade.

O medo fortalece seu inimigo

Lendo o Jornal “O Estado de Sao Paulo” (28/07) encontro o artigo escrito por João Mellão Neto, cujo título me deixa assim, vamos dizer, intrigado. Intitulado “somos das elites, sim”, o autor é bem claro a respeito do que escreve. Conclui que o artigo é um desabafo de um cidadão que expressa seu descontentamento com as “inversões” de valores existente na sociedade brasileira exacerbadas desde a chegada da “companheirada” ao poder. Em essência, o autor defende o direito de sua posição “elitista” adquirida através de “seu esforço, esclarecimento e, sobretudo, independência”, contra o preconceito social articulado pelo pensamento esquerdista que culpa todas as “malezas do Brasil exclusivamente as suas execráveis elites”. Não que ele esteja errado ao afirmar que tenha o direito de adquirir bens através de seu trabalho e esforço, muito pelo contrário, mas erra ao afirmar que os valores brasileiros sofreram “inversões” com a chegada da “companheirada”. Seria ideal se de fato estes “valores” tivessem sofrido uma inversão. Mas infelizmente isso não aconteceu.

Este assunto é muito mais complexo do que foi exposto pelo senhor Mellão Neto. O que aconteceu foi que a nova elite esquedista acoplou seu pensamento ( “…viver sem obrigações e gozar sem trabalhar…”) com o legado do patrimonialismo brasileiro. Antes eramos um país com valores adulterados e hoje nos tranformamos em um país sem nenhum valores. Mas porque nós aceitamos esta situação? Entre outras, porque nós não conhecemos o nosso próprio desenvolvimento sócio-político. Para isso é imperativo conhecer os padrões socio-políticos do comportamento da sociedade brasileira, especialmente o que referem-se aos legados do patrimonialismo e do estamento.

O patrimonialismo (possue uma matriz teórica Weberiana) pode ser descrito como a falha da comunidade política de discernir a diferença entre a esfera pública e a privada. Com o conhecimento de que o conceito do patrimonialismo ja causou controvérsias e interpretações distintas nas discussões sócio-políticas no Brasil, é somente minha intenção tentar esclarecer o conceito dentro de minhas limitações (resumindo o trabalho de grandes brasileiros como, Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro). Sérgio Buarque de Holanda ( “As Raizes do Brasil”, 1937) descreve que a aversão dos povos da península Iberian as virtudes econômicas difere daquele de outras nações ou civilizações, por sua incapacidade para reforçar toda a forma de ordenança impessoal e/ou mecânica em um relacionamento de natureza comunal e orgânica, por exemplo, relacionamento baseado no parentesco e amizade. No Brasil, onde este sistema patriarcal foi introduzido desde o descobrimento, o sistema sócio-político desenvolveu-se com a falta de equilíbrio social. Não era fácil para as autoridades públicas, educadas neste ambiente, para compreender a diferença fundamental entre o domínio público e o privado. Segundo Buarque de Holanda, havia uma falta de ordenança impessoal no estado burocrático. A família, entre todos as instituições, expressava a maioria do poder na sociedade brasileira. Este supremacia incontestável da família braslieira forneceu o modelo para o qualquer situação social, mesmo quando as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, tentam fundar a sociedade em normas anti-particularísticas.

Buarque de Holanda afirma ainda que a contribuição brasileira a civilização é a cordialidade: o Brasil dá ao mundo “o homem cordial”. As virtudes observadas geralmente por estrangeiros ao viajarem pelo Brasil, a hospitalidade, a generosidade e a gentileza, são certamente características do caráter brasileiro, contanto que, pelo menos, eles remanescam ativas e espalhem nossa influência rural ancenstral nos padrões do relacionamento humano. Entretanto, ilude-se confundir estas virtues como civilidade. Elas são expressões autêntica com um fundo emotivo extremamente rico. Segundo Buarque de Holanda algo coercivo existe na civilidade que poderia se expressar em ordens mas esta noção ritualistica da vida é mais distantes dos brasileiros (em geral) do que todos os outros povos no mundo. Os padrões de relacionamento humano brasileiro são opostos ao que a educação deveria significar. Em vez de ser manifestações espontâneas do homem cordial, a gentileza transformou-se em uma fórmula que, de um certo modo, se apresentasse como uma organização da defesa diante a sociedade. É o equivalente de um disfarce que permite que você preserve intacta sua sensibilidades e emoções. Isto implica a supremacia contínua do indivíduo sobre o social. Isto leva, finalmente, às dificuldades em conduzir ritos sociais formais e para separar, o privado do que é público. Eu diria, para substanciar as ideas de Buarque de Holanda, que no que se diz respeito as relações sociais, o Brasil ainda mostra características de uma sociedade pré-moderna.

Um outro grande brasileiro, Raymundo Faoro (“os Donos do Poder”, 1957), contribui imensamente nesta area de estudos. Ele afirma que a estrutura social-política de Brasil resistiu (e pelo jeito ainda resiste) a todas as transformações fundamentais desde os tempos coloniais. Ele argumenta que o capitalismo político brasileiro (com sua natureza de conquista, aventurosa e colonial) não somente sobreviveu mas também modelou a realidade do estado atual, incorporando em seu trajeto o capitalismo moderno (com sua racionalidade, caráter industrial e liberdade individual) sem incorporar sua alma: o racionalismo impessoal e a legalidade. O capitalismo político brasileiro é conformado a um racionalismo intrínsico e um casuísmo personalístico sem regras estáveis. Faoro quis disser que, as regras são sujeitas ao subjectivismo do grupo político controlador, chamado, estamento. O estamento não pode ser confundido com a burocracia pois não é uma substância, e sim uma qualificação. Neste capitalismo político, a comunidade política conduz e controla o negócio, inicialmente como um negócio particular em sua origem, mas mais tarde como público. Quanto aos aspectos sócio-political, a sociedade não pode organizar-se, a menos que, em uma natureza subsidiária, e deve ser compreendida no contexto de um equipamento a ser explorado e manipulado. Em uma sociedade capitalista moderna, as classes sociais são determinadas pela economia, mas dentro do contexto do estamento os pré-requisitos são bàsicamente de uma natureza social e política, eventualmente com uma superposição ocasional do estado econômico e social. De acordo com Faoro, uma sociedade de classes tem um potencial uniforme e universalista visto que uma sociedade do estamento favorece o desigualdade e o particularismo. O estamento político e burocrático brasileiro, afirma Faoro, tem sua origem no patrimonialism, mas também reforça-o. Partindo desta realidade, o patrimonialism no Brasil projeta-se como o poder institutionalizado.

No contexto brasileiro atual o patrimonialismo, no meu entender, continua a usar a modernidade para seu próprio benefício apesar do retorno da democracia e do desenvolvimento de instituições democráticas. Posso concluir que, através da introdução da democracia representativa dentro do contexto político brasileiros, nós brasileiros experimentamos um aumento na participação social mas as melhorias significativas em governar o bem público para o povo estao ainda a serem vistas. Isto é devido, principalmente, aos aspectos condicionadores da cultura política patrimonialistica e de seu controle sobre a economia e as influências do estamento na estrutura burocrática do país. Mesmo que a possibilidade de uma renovação política exista com uma eleição, não deve-se esperar mudanças radicais que visam melhorias para o coletivo. O poder do governo já tem sido incorporado em uma dimensão pessoal, destruindo todo o sentido do interesse público. O patrimonialismo despreza, como afirma Buarque de Holanda, o aspecto fundamental da modernidade: o estado de lei e o seu racionalismo, e a capacidade de fazer prognósticos. Finalmente, não é nenhuma surpresa que o interesse público é sempre a variável omissa na equação econômica política social brasileira mesmo dentro de um sistema democrático, independente dos que estão no poder. Assim como o senhor Mellão Neto, rejeito o pensamento esquerdista em minha vida pessoal ou professional, entretanto, sei que o sistema brasileiro nao é justo e que também não é só responsabilidade da “companheirada”. Mas sei também que os donos do poder, “companheiros” ou não, sempre tiveram medo da força da inteligência. Por isso, fortaleça-se.

O futuro da ciganinha

Che bello!…me arrisco a dizer em um italiano assim meio inseguro ao ver o esplendor da imponente catedral Milanesa a um amigo italiano. Com a sua majestosaarquitetura gótica o Duomo di Milano simplesmente me encantava. Nem o sol escaldante ou mesmo o barulho produzido pelo elevado numero de turistas e de vendedores ambulantes na praça principal de Milano poderiam me negar aquele momento de admiração a inextinguível capacidade humana de criação.

Mas assim como Eramus de Rotterdam, eu também me dei conta que a tolice é a eterna promesa humana. Com os meus olhos me traindo, percebo que a pouca distancia de mim uma senhora cigana “ensina” a sua própria filha a mendigar, negando-a o direito de se desenvolver ao máximo de suas potencialidades, compromentendo assim seu futuro. Com a idade na qual ainda não é sequer possível compreender o conceito do tempo (o ontem, o hoje e o amanha) a criança encontrava-se em uma situação de exploração e constregimento. Obviamente não dava-se conta da exploração ou do constrangimento por qual passava, pois seu instinto de sobrevivência lhe forçava a criar mecanismos de defesa (e.g., criando uma falsa realidade ao bloquear a verdade realidade através de uma barreira psicológica) para lidar com tal situação de abuso psicológico (e/ou físico). Constrangido ficaram só os meus conceitos burguês de moralidade. Ao tentar fugir da realidade “cruel” e “suja” na qual me encontrava, escondi-me atrás de uma raciocínio moralmente suspeito: se não vejo nada, posso concluir que também não sei de nada. Decidi, então, entrar rapidamente no Duomo e percebi que o ar estava mais fresco e a paisagem mais “limpa”, trazendo consigo a percepção de que a “normalidade” fora restabelecida. Estranho, mais naquele momento me senti, pelo mesmo por alguns instantes, como o supremo mentecapto petista (apesar de conhecer o valor dos estudos, não haver uma aposentadoria prematura, não tomar cachaça e não andar de avião de 400 milhões de reais). Agora eu sei como se senti o cidadão da terra das “mil e umas noites”. Tudo isso porque simplesmente eu decidi ignorar o problema da ciganinha. Mas na defesa deste pobre burguês atordoardo por questões morais, sei que não seria justo exigir de mim uma solução para este problema social italiano. Isto exigiria um conhecimento muito além de minhas possibilidades, reconheço em minha própria defesa.

Posso e vou, entretanto (um ato de auto-protecao e/ou auto-interesse), me envolver com os problemas de uma outra “criança”  que conheço. Pelo menos e como nós, eleitores uruaçuense, somos tratados pelos nossos políticos. Nós, cidadãos uruaçuense, somos anologicamente falando, como aquela criança cigana na porta do Duomo de Milano. Somos forçados a “mendigar” por nossos direitos, e somos consequentemente, expostos a um constrangimento constante pela limitações da presente lista de pré-candidatos a prefeitura e a câmara municipal para as próximas eleições. A nossa escolha (o que de fato não é um escolha) é quase sempre entre o “sujo” e o “mal lavado”. O problema é que a nossa atitude política é formada por nossas experiências, forjadas durante a interação entre nós, eleitores, e a “classe” política durante o processo eleitoral. Temo que com a presente lista de pré-candidatos dentro do processo sucessório 2008 que a nossa atitude política continuara a mesma, pois a classe política quase sempre atrai pessoas com características semelhantes. Em meio a tanta sujeira, não posso deixar de ver (talvez um auto-mecanismo de defesa, como a criança cigana) o humor e a ironia desta situação. Veja bem, a ironia é caracterizada por subverter o símbolo que, a princípio, representa. Ela utiliza-se como uma forma de linguagem pré-estabelecida para, a partir e de dentro dela, contestá-la. Uma das definições da palavra candidato, oriunda do latim candidatu, significa simplesmente, aquele que aspira dignidade. A lista de pré-candidatos a prefeitura e a câmara municipal em Uruaçu é o paradigma máximo desta ironia (apesar de toda regra ter sua exceção, e aqui não poderia ser diferente), e como se isso já nao fosse suficiente, é  também um produto de uma aberração filosófica. Pré-candidatos postulam quase que abertamente um hedonismo político (uma versão intelectual da nossa conhecida Lei Gerson) cujo o dictum declara a maxima vantangem para poucos, devendo ser imediata e também o supremo bem da vida política (uma versão atrofiada e totalmente corrompida daquele famoso dictum postulado pelo filosofo liberal Jeremy Bentham, um dos defensores do utilitarianismo). Pressupondo que a apatia profunda na política uruaçuense (simplesmente um retrato minúsculo da política nacional, como prova a absolvição do senador Renan Calheiros) continuará por um bom tempo, temo que teu futuro, Uruaçu, seja idêntico ao da ciganinha milanesa. Uma pena, pois vocês simplismente mereciam um futuro melhor.

O inverno Brasileiro

Da janela do meu quarto, observo o vento forte e as folhas amareladas das árvores caindo, anunciando a chegada da nova estação, e com ela a implícita mensagem do dinamismo da natureza. Tudo se renovará …
O escuro do outono, junto com o calor produzido pelo aquecimento interno da minha casa, me faz cochilar. Mas recebo um telefonema de um amigo Italiano, Francesco Spada, me convidando a sua casa para um café. O convite, devo confessar, veio convinientimente em boa hora, pois ainda estou sobre o efeito depressivo do narcótico chamado “resposta da maioria do eleitorado brasileiro aos casos de corrupção denunciados regularmente pela impressa Brasileira”. Pego a bicicleta, e debaixo de chuva chego a residência da família Spada, e como sempre, sou muito bem recebido. Recuso, porém, o cappucino, e peço se possível, um espresso, pois a ressaca do narcótico é forte. Talvez pelo efeito do outono e pela simpatia da família Spada, sinto-me em casa, e enquanto espero o café resolvo dar uma andadinha na sala. Na estante, vejo livros de diversas ciências, mas os de fisica se sobresaem sobre os demais. Um fato previsível, se considerarmos que Francesco seja doutor em fisica, mas se recusa a ser chamado de “doutor”, talvez por considerar a sua pessoa muito mais importante do que um título possa possivelmente expressar. Desconfio que, “movido” pela energia transoceânica da “maioria do eleitorado brasileiro”, minhas mãos vão direto ao livro sobre as leis de Newton e abro-o exatamente na primeira lei, ou seja, o princípio da inércia.

Este princípio foi anunciado pela primeira vez por Galileu Galilei e desenvolvido mais tarde por Isaac Newton, e descreve o movimento dos corpos desprezando o efeito do atrito. Pode ser formulado da seguinte forma: considere um corpo não submetido à ação de nenhuma força ou submetido a um conjunto de forças de resultante nula; nesta condição esse corpo não sofre variação de velocidade. Podemos interpretar a inércia da seguinte maneira: todos os corpos são “preguiçosos” e não desejam modificar seu estado de movimento. Um exemplo: após um avião decolar a velocidade dele se tornará constante, produzindo um efeito estationário (inércia) nos passageiros abordo. Em outras palavras, o passageiro dentro do avião com velocidade constante, não considerando as turbulências, teria a percepção que estivesse em sua casa, sentado, quieto em uma poltrona. Naturalmente que esta é uma percepção errada. Na verdade, mesmo em velocidade constante, o avião ainda se encontra em uma velocidade muito alta.
Apesar de atordoado (o espresso ainda está no fogo) estou consciente o suficiente para entender que a percepção da realidade em geral, depende das nossas condições pessoais, do grau educativo que ostentamos e do contexto sócio-econômico-político em que estamos inseridos. Sei tambem que há diferenças na maneira pela qual os mesmos objetos são percebidos em diferentes sistemas culturais.
Este último aspecto me leva a fazer uma autocrítica, e chego sem muito esforço a uma contrição de culpa, pois, apesar de circunstâncias atenuantes, me considero réu confesso.
Confesso que, na juventude, também fui co-responsável pela força popular, que analogicamente falando, forneceu equilibrio, em relação à força da decadência moral na politica brasileira, para produzir um estado de inércia ética, um “corpo preguiçoso”, na sociedade Brasileira. Esta força popular é capaz de criar uma percepção para os políticos, que tudo é válido e que tudo podem, pois eles sabem que a massa preguiçosa não deseja modificar o estado de movimento inércio em que se encontra.

Força esta que, produz uma esquizofenia coletiva: de um lado, ficam indignados por tanta corrupção, mas do outro lado, recolocam no poder a turma do Ali Silva e os seus 40 sindicalistas.Força esta que, por falta de conhecimento histórico do desenvolvimento sócio-político do Brasil, mantém um sistema patrimonialista no poder, descrito com tanta precisão por Sergio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro em seus livros “Raizes do Brazil” (1976) e Os Donos do Poder” (1958), respectivamente.
Força esta que, por falta de civismo, venda o que há de mais sagrado em um democracia, o voto, ao primeiro politico “amigo” ou charlatão que aparece.
Força esta que, por pura dependência, se dispoem a acreditar em um messias político para salvá-los de um inferno de injustiças que os cercam.
Força que, por falta de iniciativa própria e/ou por simples preguiça, usam a pobreza como desculpa para deixarem ser manipulados pela política assistentialista das elites, fazendo longas filas na porta do programa Bolsa Familia, mas deixando o Banco do Povo ocioso em comparação.
Força esta que, se adapta ao consumerismo capitalista, mas se recusa a adquirir a sua alma empreendedora,
eficiente, pontual e creativa
, agarrando-se a viúva com unhas e dentes.
Força esta que, por falta de amor próprio e senso de cidadania, produz mulheres que, sem esperancas, se prostituiem na Europa, e depois, ainda as zombam na rua com um “…lá vai uma das espanholas”.  
Força essa que, por falta de senso crítico, de patriotismo e visão própria, permite que instituições como por exemplo, as ONGs e a rede Globo, ditem os parâmetros pela qual devemos viver.
Força esta que, por pura falta de responsabilidade pessoal, entrega as decisões mais importantes de suas próprias vidas nas maos de “religiosos” sem escrúpulos, de intelectuais “macacos” e juristas dignos de um fundamentalismo liberal inigualável no mundo “livre”.
Força esta que ignorou, e completamente humilhou, o único candidato a presidência da República que, de fato, teve a coragem (a propósito, não sou membro do partido deste candidato) de dizer: sem a educação este país não se move, e a renovação que nos tanto anseiamos nao acontecerá.

E por falar em educação, volto o pensamento mais uma vez ao gênio Galileo. Este argumentou também que, um corpo que está em repouso permanece em repouso a menos que seja submetido a uma força que o faça mover-se. Analogicamente falando, creio que a educação possua força suficiente para, pelo menos, alterar este movimento constante de decadência moral em que vivemos ou movimentar este corpo preguiçoso ou inércio de uma boa parte da sociedade brasileira em uma ação empreendedora, renovadora. Sim, também acredito no caráter transformador da educação, pois também sou fruto dela. Ela foi responsável pela renovação na minha vida política. Hoje, transformado pela educação, não tenho como apelar para os “não sabia de nada”, “nao vi nada”, “nao ouvi nada”, como o supremo mentecapto petista, pois isso adicionaria circunstâncias agravantes ao “crimes” de incompetência professional e falta de caráter pessoal.
O aroma me diz que o espresso está pronto e torno o pensamento de novo ao meu querido Brasil, e reflito. A educação irá se encarregar de ajustar a nossa percepção da realidade em que vivemos. Mas para isso deixemos as nossas folhas amareladas, inércias, preguiçosas cairem. Lembre-se de que a primavera não está distante. Ela chegará, apesar da longa escuridão da ignorância no nosso “inverno” brasileiro.
Mas nao me desespero, pois aprendi com as estações do ano, que tudo tem o seu tempo: o fim de uma vida, assim como o renascer de outra.

Falta um movimento dos direitos humanos no inferno

Quando andava pelo seu vasto território, que outrora havia problemas de superlotação, Lúcifer percebeu que o inferno estava agora com um problema de baixa ocupação em suas dependências. O problema era tão sério que Lúcifer estava de saco cheio, afinal de contas paciência tem limite até mesmo para o Senhor das chamas.

Sentado e pensativo no canto mais quente do inferno, tentando ouvir os gemidos de sofrimento de seus poucos hóspedes, contemplava suas opções sobre o que fazer para evitar fechar as portas do inferno. Olhando em seu livro de entradas, Lúcifer percebeu que a baixa ocupação no inferno era causada pelo baixo número de criminosos perigosos e políticos corruptos oriundos de um certo país.

Para confirmar, Lúcifer fez uma pesquisa na google e constatou que de fato o inferno havia perdido sua atração entre os malfeitores, e que os mesmos haviam encontrado um outro lugar, com um clima tropical e mulatas semi-nuas, que oferecia melhores condições que o inferno. Ele chegou a conclusão que havia um dilema em suas mãos. Apesar de feliz pelo sucesso do trabalho dos malfeitores soltos nas ruas deste país, esta situação já estava criando problemas internos no inferno, onde suas dependências não eram mais ocupadas pelos seus traditionais hóspedes, aumentando assim seu custo de manutenção. Lúcifer havia, afinal de contas, que levar em consideração a reunião anual dos sócios no inferno, pois em breve teria que dar explicações pela queda dos lucro marginal aos investidores estrangeiros.

Este país, chamado Pizzaria, já era de conhecimento de Lúcifer pois as relações bilaterais existia a mais de 500 anos, e a cooperação sempre foi das melhores. Como cultivava também um bom relacionamento com o poder invisível (aqui chamado de consciência por conveniência) que controlava o governo decorativo da Pizzaria, decidiu então visita-lo. Chegando a capital do país em um jatinho emprestado por um empresário, convocou uma reunião extraordinária com a “consciência” para tentar identificar a causa do problema da diminuição de envio de malfeitores ao inferno. A consciência da Pizzaria é influenciada basicamente por dois membros, carinhosamente chamados por Lúcifer, de companheiro “bonzinho fundamentalista liberal” e o companheiro “bonzinho fundamentalista cristão” (podem acusar Lúcifer de tudo menos que não tenha senso de humor), representando respectivamente dois grupos importantes de diabinhos caidos do céu: os querutudin e os safadim. Apesar de serem só dois, não se enganem, juntos eles são responsáveis pelas mais audaciosas manobras diabólicas conhecidas na Pizzaria. Em comparação Lúcifer seria um diabinho qualquer, capaz de no máximo assustar crianças em noites escuras.

Depois de uma tumultuada reunião, entre discussões infernais, Lúcifer chegou a conclusão (diga-se de passagem, através de uma revelação pois ainda remanesce em Lúcifer um pouco de sua outrora natureza angelical), que os representantes dos direitos humanos na Pizzaria eram os responsáveis por transformar o inferno em um destinação obsoleta, através de uma concorrência desleal (se até o Senhor das chamas reclama de deslealdade é porque a coisa de fato anda preta, desculpem, feia). Esta conclusão causou grande comoção no consciência da Pizzaria fazendo com que os companheiros fossem levados as pressas ao cardiologista de plantão.

De dentro do consultório acionaram o ministério público da Pizzaria (MPP), como também a ordem dos advogados (OAP), que por vez, aproveitou-se desta oportunidade para acusar Lúcifer de abuso de poder, racismo e de crime ambiental por ter causado o efeito estufa no inferno. Lúcifer se acovardou com a censura do facismo pós-moderno da MPP, e com o rabo entre as pernas, foi forçado a reavaliar sua conclusão sobre risco de ter seu visto de permanência revogado. E para contornar a rebelião que estava se formando, ofereceu aumentar a inescrupulosidade dos advogados e políticos na Pizzaria, e consequentemente a rebelião foi parcialmente controlada.

Entretanto, ele perdeu força e prestígio entre os companheiros, e por isso, foi tambem “aconselhado” a expressar em público sua consideração e estima aos defensores dos direitos humanos. Para alguém que já perdeu suas asinhas uma vez em uma briga com Deus e Seu archangel Miguel, Lúcifer sabe muito bem que com poderes divinos não se brinca.

Por isso, ele foi conduzido a um discursso político a ser lido no parlamento (escrito pelos conselheiros, pois Lúcifer, apesar do poder, é um semi-analfabeto) através do qual, acusava a exclusão social e as elites da Pizzaria como os maiores responsavéis pelos problemas do inferno, eximindo completamente a culpa dos representantes dos direitos humanos.

Através de um “mea culpa” ele reconheceu aos companheiros que não fez o suficiente para modernizar o inferno. Como reconhecimento por sua “mea culpa”, Lúcifer recebeu de presente um livro entitulado, “Como destriur uma nação e construir um inferno: populismo, socialismo, ECA, ONGs do meio ambiente e o fundamentalismo dos direitos humanos”, de autoria de Frei José Traidor.

Lúcifer retornou ao inferno e com o conhecimente recém adquirido de sua viagem a Pizzaria, conclui que daquele dia em diante tentaria transformar o inferno em um lugar mais atraente para malfeitores. E assim, contratou os serviços de um publicitário conhecido simplismente como, Dudu, para a tarefa de criar a nova imagem do inferno.

Decidiu também que precisaria de um sistema de comunicações para vender esta nova visão do inferno, e que por isso criou a Rede Global de televisão para a função. Como primeira medida, foi aconselhado a assegurar uma certa porcentagem de vagas infernais para certos grupos racias. E assim foi criado o modelo de cotas raciais para que todos pudessem ter também seu próprio espaço no inferno, aumentando principalmente a parcela destinadas aos índios e negros. Também não se falaria mais em exclusividade infernal, pois daquele momento em diante, desembargadores e juízes das altas cortes do inferno, andaria de ombro a ombro com os militantes do movimento sem terra do inferno (MSTi). Sim, o MSTi também teriam o seu lugar nas chamas eternas, e o que é melhor, sem precisar transformar o inferno em uma república socialista, pois no inferno, ambas são consideradas sinônimas.

Para atrair todos os malfeitores prometeu também facilitar a concessão de habeas corpus, assim como conceder foro previlegiado para os políticos corruptos, sendo julgados somente pelo Supremo Tribunal Infernal, principalmente a políticos que não vêem, ouvem ou não sabem de nada. Mas como a maldade tem limites, até mesmo para Lúcifer, ele recusou uma proposta macabra de seu publicitário infernal para que seu ministério de turismo iniciasse uma campanha publicitária, transformando o inferno em um paraíso sexual, que atrairia depravados sexuais europeus e norte-americanos para passarem suas férias abusando de mulheres e garotos no inferno.

Mas Lúcifer, mesmo com toda sua experiência adquirida infernizando a vida de toda a humanidade no decorrer de sua história, tinha ainda pela frente seu maior obstáculo. Como, perguntava-se assim meu angustiado, conseguirei convencer sociopatas e psicopatas a partirem para o inferno? Como posso competir com leis mais diabólicas que as vigentes na Pizzaria onde juízes são instruídos a darem mais importância a um grão de areia do que a praia, e onde o sistema judicial garanta a sociopatas, psicopatas e outros criminosos (principalmente a menores de 18 anos) a segunda, terceira, quarta, enfim, quantas chances forem preciso para mantarem, estruparem, torturarem ou venderem drogas?

Lúcifer deu-se finalmente por vencida sua tentativa de manter as portas do inferno abertas, pois para isso necessitaria de uma “consciência” dos direitos humanos como aquela existente na Pizzaria, mas isso não se encaixaria na estrutura luciferiana. Mas como diz o ditado, se não pode vencer seu concorrente una-se a ele. Lúcifer fechou as portas do inferno e partiu de vez para um curso de pos-graduação na Pizzaria, pago naturalmente por uma ONG …

Publicado em: on Janeiro 14, 2008 at 3:34 pm Deixe um comentário