A liberdade, afirmou Lord Acton, não é o direito de fazer aquilo que queremos mas o direito de fazer aquilo que devemos. O direito de uma pessoa de expressar-se em liberdade é um aspecto importante em uma sociedade civilizada, mas não forma a sua essência indispensável. Um ideal regulador da verdade é necessário para garantir o fundamento onde um saudável diálogo possa suceder na arena pública, pois, como declara o teólogo católico Michael Novak, se queremos nos libertar de nossas ilusões e das nossas apreenssões falsas e superficiais, nós precisamos avançar em direção a luz da verdade, que é maior que nós.
Mas para evitar extrapolar a barreira da história e ser acusado de defeder o meu “pão-de-cada-dia” (apesar de nem sequer ganhar as migalhas-de-cada-dia como teólogo) gostaria de designar a mesma história como a “reguladora da verdade”, de tal maneira, que as evidências apresentadas em meu argumento (e não mitos politicamente construídos) possam a ser julgadas pelo leitor usando seu direito hermanêutico. Digo isso porque somos frequentemente expostos a opiniões de pessoas ou grupos que, com um suposto vasto conhecimento intelectual e julgando-se depositários da verdade, dão a graça de nos presentear com suas percepções como se fossem a verdade indiscutível. Vivemos em um mundo onde grupos de origem fundamentalistas liberais (principalmente de cunho feminista radical e homossexual) e seus aliados na imprensa e na indústria cinematográfica, defendem seus próprios interesses construindo falsas verdades, e as defendem contra qualquer pessoa ou instituição que se atreva a postular uma opinião diversa.
Nesta categoria exclusiva dos pesos pesados, so encontramos uma instituição universal capaz de reinvidicar para si a cólera dos fundamantalistas liberais: a igreja católica. Peter Viereck afirmou corretamente que importunar católicos é o anti-semitismo dos liberais. E este preconceito anti-católico não é somente aceito mas tambem é difuso pela imprensa ocidental de forma orquestrada.
O professor de História e Religião na Universidade Estadual da Pensilvânia, Philip Jenkins, afirma que para atacar a igreja católica deve se construir primeiro uma estrutura consequente que permita que preconceitos contra a instituição sejam aceitos como fatos pelo população em geral. Geralmente essa estrutura é baseada no poder evocativo da inquisição, das crusadas e do “silêncio” durante o holocausto, como se qualquer pessoa “normal” devesse concordar com estas afirmações, e consequentemente responsabilizando católicos pela culpabilidade destes eventos. Mesmo que a relevância ou a exactidão de cada uma destas referências históricas ainda estar aberta ao debate, somente pelo fato de cita-las, transformam-as em verdades absolutas, sendo suficiente para representar a “autêntica” face do catolicismo romano. Uma vez construída a estrutura, o preconceito anti-católico pode ser justificado, incentivado e acima de tudo aceito sem nenhuma objeção. Aí se encontra o problema maior: a retórica anti-católica, o ataques a lideres e a doutrina católica, são aceitos como uma coisa normal. Para ilustrar este ponto de vista nada melhor do que a divulgação sobre os casos de padres pedófilos nos meios de comunicação.
Nos últimos anos temos sidos confrontados quase que semanalmente com os casos de pedofilia involvendo sacerdotes católicos. A propaganda é tão omnipresente que quando encontramos um padre não podemos, injustamente, deixar de associar-lo a pedofilia. Recetemente, o “articulista” do Diário da Manhã/GO, Marcelo Caixeta em um de seus artigos (13/11/2007), seguiu esta retórica anti-católica e escreveu a seguinte frase: “….minha impressão, posso estar errado, é que a religião permite a florescência e o albergue de determinado tipo psicológico assim como na católica (religião) parece albergar a propensão a pedofilia”. Com um jogo de palavras, o leitor foi impudentemente induzido a falácia, pois em geral a mente do leitor é desatenta e viciada na retórica anti-católica de pseudojornalistas nos meios de comunicação. As palavras de Marcelo Caixeta que são claramente baseadas em um juízo de valor (..minha impressão, posso estar errado…), poderiam ser facilmente aceitas como se fossem de juízo objectivo, que ainda concederam o autor uma imunidade de responsabilidade, além de iseção de providenciar evidências críveis por suas insinuações. O uso da verbo “parecer” foi também muito leviano, principalmente devido a própria natureza do assunto em questão, pois a mais leve das sugestões de envolvimento com a pedofilia é capaz de assassinar moralmente e estigmatizar uma pessoa ou um grupo para o resto de suas vidas, destruindo-os. Ora médico Marcelo Caixeta, se parece é porque nao é. Como deve também o leitor entender o uso do verbo alberguar? Como um anfitrião que deliberadamente acolhe seu hóspede em casa sem estar consciente de sua personalidade ou em termos biológicos, mais precisamente, em uma relação simbiótica?
O problema é que estas palavras possuem um significado enganoso. Marcelo Caixeta fez o uso astuto das palavras, mas não o uso honesto, o mínimo que se exige para a credibilidade de um articulista. A semântica da língua portuguesa pode ter contribuído com uma certa imunidade para o autor desta covarde retórica anti-católica, mas não explica neste caso o porque da omissão de fatos importantes relacionadas com a parafilia (já que o mesmo é médico psiquiatra), que são extremamente importantes na análise das insinuações levianas e irresponsáveis de Marcelo Caixeta.
Por isso a importância que a imprensa antes de sugerir a associação entre o clero católico e a pedofilia, deveria informar que, a etilogia desta parafilia é ainda desconhecida, e por isso deveria ser mais cuidadosa com as informações que publica. Deveria, por exemplo, diferenciar a pedofilia da pederastia, ambos horríveis manifestações de disordem sexual e moralmente deploráveis, mas com importância jurídica e psiquiatra muito diversas: as vítimas pertecem a idades de desenvolvimento diferentes assim como os criminosos (padres ou não) possuem características diferentes.
Deveria informar também que a maioria esmagadora de casos de abuso sexual de crianças ocorrem na esfera familiar ou em outros segmentos da sociedade, como na áreas da educação, assistência social ou na saúde, consequentemente, seria lógico argumentar que, por exemplo, familiares, vizinhos, professores, assistentes sociais e médicos proporcionalmente abusariam de criancas bem mais do que padres católicos. Outro fato interessante sempre omisso é que a pedofilia quase sempre se manifesta no sexo masculino, e como a igreja católica possue o maior numero de sacerdotes que qualquer outra denominação no mundo cristão, é lógico então concluir que o nível de incidência em termos absolutos deste crimes na igreja católica seria muito maior que nas outras denominações. É também conhecido que quase todos os vítimas de abuso sexual por sacerdotes católicos eram adolecentes do sexo masculino, cerca de 83% (Estudo comissionado pela Conferência Espiscocal dos Bispos Norte Americanos ao John Jay College of Criminal Justice, The City University of New York, 2002), indicando o carácter pederasta do crime (informação sempre omissa nos jornais). Isso implica que padres com tendências homofílicas (é importante frisar que nem todo homossexual seria por definição um pederastra) eram os maiores responsáveis por esses crimes bárbaro, o que não isenta a igreja católica de responsabilidade, muito pelo contrário, mas que exclui o celibato ou a religião católica como um fator fundamental na “florescência” da pedofilia, como insinuou irresponsavelmente o médico Marcelo Caixeta.
O que ocorre é que estes homens com uma predisiposição para molestarem crianças são atraídos (não existem testes para detectar esses indivíduos na psiquiatria) para a vida em celibato com a esperança de poderem controlarem suas disordens sexuais, o que de fato não ocorre. Ou talvez, por pensarem que estariam camuflados e seguros pelo status social de um sacerdote, e consequentemente, livres para agirem em detrimento da criança ou do adolescente. Bispos em suas dioceses falharam grossamente na seleção de seminaristas ao negarem diversas diretrizes emitidas pelo Vaticano proibindo a seleção de candidatos homossexuais ao sacerdócio (a última intitulada, “Instrução sobre os critérios de discernimento vocacional acerca das pessoas com tendências homossexuais e da sua admissão ao Seminário e às Ordens Sacras”, Vaticano, 2005). A Igreja tambem falhou como instituição ao ser leniente nas apurações destes crimes e consequentemente na punição dos criminosos, pois deveria ter colocado a vida dos jovens acima do cooperativismo sacerdotal. Infelizmente, devo concordar com Erasmus de Rotterdam (padre católico e humanista), que a mente de um homen é tal que ela é mais acessível a falsidade do que a verdade. Com isso, o preço é sempre pago pelos inocentes. Neste casos, padres celibatários e os jovens.
Não existem provas que indiquem que as doutrinas e os ensinamentos católicos ou mesmo a vida em celibato, possam possivelmente “albergarem uma propensão” a pedofilia ou outra forma de parafilia. O que existe é que a retórica anti-católica esta tão enraizado em nossos meios de comunicações e acadêmico que geralmente achamos difícil examinar concientemente o que cada fato significa. Uma vez criada a conjectura anti-católica padres passam a serem vistos como molestadores de crianças, sendo considerados culpados até provada a inocência, resultado da falta de ética de pseudoarticulitas que falham em sua tarefa de serem intelectualmente independentes, como prova com extrema facilidade o médico Marcelo Caixeta. Como historiador, intelectual, escritor e um católico devoto em um país hostíl a sua fé, Lord Acton pronunciou seu famoso dictum “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente” referindo-se não a rainha da Inglaterra, como era de se esperar naqueles tempos de intolerância religiosa, mas ao próprio Papa Pius IX com sua doutrina da infabilidade, designando assim que o segredo da honestidade de um homen não se encontra na neutralidade intelectual de suas palavras, mas sim na independência intelectual de seu raciocínio. E o que carateriza um escritor independente, senhor Marcelo Caixeta, é quando ele se preocupa mais com o “porque” do que pelo o “como”.