O eufenismo liberal é o canto moderno da sereia.

Os fogos de artifícios iluminam o céu escuro comemorando a chegada do ano novo. Diante da janela da sala olhando em direção as águas do canal próximo entre as árvores defloradas e os flocos brancos de neve caindo, meu convidado parece se impressionar com o que vê. Com o sorriso lhe traindo, se encanta como se fosse um dos 40 sindicalistas “aloprados” no seu primeiro dia de poder no Palácio da Alvorada.
Vira-se, e com uma expressão de curiosidade ainda visível em seu rosto, faz um gesto me convidando a aproximar. Mesmo sem o poder da vidência tive um pressentimento muito forte de que não foi a beleza da neve, do canal ou dos fogos de artifícios que o levou a tal reação. E que, sobre as águas do canal perto de minha casa, encontra-se os barcos das prostitutas, cerca de 100 em todo, que em linha reta, formam uma vista que sem dúvida nenhuma impressionaria à qualquer pessoa, como prova a expressão facial do meu convidado. Atraído pelas luzes neon dos barcos, ele observa homens dentro de seus carros observando uma mulher semi-nua em movimentos sensuais, que por sua vez, observa com o estoicismo desenvolvido pela dura realidade de sua vida, o que a “liberdade” lhe oferece. Talvez traído pela inocência dos seus anos, ele se diz contente de poder estar em um país onde a “liberdade” seja onipresente.

Talvez por isso me pergunto se uma outra mulher, descrita intencionalmente como um símbolo maior da Liberdade, com uma educação clássica, armada com o conhecimento contra a neblina da paixão e a escuridão da ignorância, bem vestida, disciplinada, com objetivos claros e séria em aparência, provocaria a mesma reação em meu jovem convidado. Pois esta senhora Liberdade que o educação católico Michael Novak (comentando sobre o seu livro “The Hunger for Liberty”, 5/18/2005) descreve é primeiramente um atributo do espírito invariável, do intelecto, da luz da razão e consequentemente da ética. A ética por sua vez, afirma Novak, forma um elemento essencial da humanidade, que a todos interessa, pois é nela que o significado das questões, dos limites, das expectativas da vida se manifesta. E é exatamente nessas questões marginais da vida que corremos o risco de nos deixar ser manipulados pelo canto da sereia do eufemismo da elite fundamentalista “liberal” que, através de sua força sedutora e enganadora, anestesia as nossas percepções éticas, inibindo as nossas reações, fazendo nos sentir culpados por discordar, criando um ambiente onde tudo, repito, tudo faz parte do normal e do aceitável.

Para um exemplo prático de uma situação marginal, nada melhor que residir no país mais “liberal” do mundo: Holanda. Sobre o pretexto de garantir os “direitos humanos” (em si outro eufemismo) dos homossexuais, e utilizando o eufemismo “orientação sexual” como base, o parlamento holandês aprovou alguns anos atrás o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que me interessa aqui é a agenda oculta do eufemismo liberal, sua capacidade enganadora embutida em si, capaz de um mal maior do que primeiramente observado. E que, através de uma interpretação secundária desta mesma lei, os juízes holandeses garantiram aos pedófilos o direito de se organizarem politicamente. Hoje, a Holanda é o primeiro país no mundo com a vergonhosa (adjetivos mais adequados me falham nesse momento)  posição de ter um partido político (não representado no parlamento) cuja função única e exclusiva é a proteção dos “direitos humanos” de pedófilos de exercerem sua “orientação sexual”. Para uma pessoa de bom senso outro exemplo não seria necessário.

Por isso, onde a “liberdade” se torna o símbolo “eufêmico” maior das sociedades liberais, a Liberdade simplesmente não existe mais. Ela se tornou vítima da ausência de todas as restrições dentro da alma dos homens e mulheres livres. Esta ausência de restrições, afirma Novak, não é sinônimo de civilização, mas sim de barbarismo, e a liberdade que é internamente desorganizada não é liberdade, mas sim niilismo. A liberdade individual não significa libertinagem pois o nosso senso de moralidade não deve ser baseado no instinto animal de nossa espécie ou de distúrbios psicológicos, dependendo exclusivamente de circunstâncias variáveis, transformando-se em algo relativo. Em uma sociedade verdadeiramente livre a Liberdade é sobretudo uma idéia incorporada. Para Novak, a liberdade é baseada sobre um corpo de discernimentos, mas que não deve ser meramente comunicada através de conceitos abstratos, mas sim profundamente incorporada nos nossos próprios hábitos e experiências. Este corpo de discernimentos, afirma Novak, deve ser redescoberto em cada geração, sem coerção, pois é somente em um ambiente em que a escolha é possível é que os homens aprendem exercitar sua Liberdade em uma maneira responsável e dissipada através das instituições sociais como a família e as igrejas, que ensinam (ou deveriam pelo menos ensinar) e promovem os hábitos e as tradições da ação ética. Mas a ética por sua vez também precisa de um fundamento invariável, imutável que nos leve a plenitude de uma liberdade responsável. A questão da ética refere-se em sua vez a Verdade Absoluta: Deus. E é na importância dessa Verdade que o valor de todo ser humano vem inteiramente a ser apreciados, tornando-se verdadeiros filhos da Liberdade.

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