Quando andava pelo seu vasto território, que outrora havia problemas de superlotação, Lúcifer percebeu que o inferno estava agora com um problema de baixa ocupação em suas dependências. O problema era tão sério que Lúcifer estava de saco cheio, afinal de contas paciência tem limite até mesmo para o Senhor das chamas.
Sentado e pensativo no canto mais quente do inferno, tentando ouvir os gemidos de sofrimento de seus poucos hóspedes, contemplava suas opções sobre o que fazer para evitar fechar as portas do inferno. Olhando em seu livro de entradas, Lúcifer percebeu que a baixa ocupação no inferno era causada pelo baixo número de criminosos perigosos e políticos corruptos oriundos de um certo país.
Para confirmar, Lúcifer fez uma pesquisa na google e constatou que de fato o inferno havia perdido sua atração entre os malfeitores, e que os mesmos haviam encontrado um outro lugar, com um clima tropical e mulatas semi-nuas, que oferecia melhores condições que o inferno. Ele chegou a conclusão que havia um dilema em suas mãos. Apesar de feliz pelo sucesso do trabalho dos malfeitores soltos nas ruas deste país, esta situação já estava criando problemas internos no inferno, onde suas dependências não eram mais ocupadas pelos seus traditionais hóspedes, aumentando assim seu custo de manutenção. Lúcifer havia, afinal de contas, que levar em consideração a reunião anual dos sócios no inferno, pois em breve teria que dar explicações pela queda dos lucro marginal aos investidores estrangeiros.
Este país, chamado Pizzaria, já era de conhecimento de Lúcifer pois as relações bilaterais existia a mais de 500 anos, e a cooperação sempre foi das melhores. Como cultivava também um bom relacionamento com o poder invisível (aqui chamado de consciência por conveniência) que controlava o governo decorativo da Pizzaria, decidiu então visita-lo. Chegando a capital do país em um jatinho emprestado por um empresário, convocou uma reunião extraordinária com a “consciência” para tentar identificar a causa do problema da diminuição de envio de malfeitores ao inferno. A consciência da Pizzaria é influenciada basicamente por dois membros, carinhosamente chamados por Lúcifer, de companheiro “bonzinho fundamentalista liberal” e o companheiro “bonzinho fundamentalista cristão” (podem acusar Lúcifer de tudo menos que não tenha senso de humor), representando respectivamente dois grupos importantes de diabinhos caidos do céu: os querutudin e os safadim. Apesar de serem só dois, não se enganem, juntos eles são responsáveis pelas mais audaciosas manobras diabólicas conhecidas na Pizzaria. Em comparação Lúcifer seria um diabinho qualquer, capaz de no máximo assustar crianças em noites escuras.
Depois de uma tumultuada reunião, entre discussões infernais, Lúcifer chegou a conclusão (diga-se de passagem, através de uma revelação pois ainda remanesce em Lúcifer um pouco de sua outrora natureza angelical), que os representantes dos direitos humanos na Pizzaria eram os responsáveis por transformar o inferno em um destinação obsoleta, através de uma concorrência desleal (se até o Senhor das chamas reclama de deslealdade é porque a coisa de fato anda preta, desculpem, feia). Esta conclusão causou grande comoção no consciência da Pizzaria fazendo com que os companheiros fossem levados as pressas ao cardiologista de plantão.
De dentro do consultório acionaram o ministério público da Pizzaria (MPP), como também a ordem dos advogados (OAP), que por vez, aproveitou-se desta oportunidade para acusar Lúcifer de abuso de poder, racismo e de crime ambiental por ter causado o efeito estufa no inferno. Lúcifer se acovardou com a censura do facismo pós-moderno da MPP, e com o rabo entre as pernas, foi forçado a reavaliar sua conclusão sobre risco de ter seu visto de permanência revogado. E para contornar a rebelião que estava se formando, ofereceu aumentar a inescrupulosidade dos advogados e políticos na Pizzaria, e consequentemente a rebelião foi parcialmente controlada.
Entretanto, ele perdeu força e prestígio entre os companheiros, e por isso, foi tambem “aconselhado” a expressar em público sua consideração e estima aos defensores dos direitos humanos. Para alguém que já perdeu suas asinhas uma vez em uma briga com Deus e Seu archangel Miguel, Lúcifer sabe muito bem que com poderes divinos não se brinca.
Por isso, ele foi conduzido a um discursso político a ser lido no parlamento (escrito pelos conselheiros, pois Lúcifer, apesar do poder, é um semi-analfabeto) através do qual, acusava a exclusão social e as elites da Pizzaria como os maiores responsavéis pelos problemas do inferno, eximindo completamente a culpa dos representantes dos direitos humanos.
Através de um “mea culpa” ele reconheceu aos companheiros que não fez o suficiente para modernizar o inferno. Como reconhecimento por sua “mea culpa”, Lúcifer recebeu de presente um livro entitulado, “Como destriur uma nação e construir um inferno: populismo, socialismo, ECA, ONGs do meio ambiente e o fundamentalismo dos direitos humanos”, de autoria de Frei José Traidor.
Lúcifer retornou ao inferno e com o conhecimente recém adquirido de sua viagem a Pizzaria, conclui que daquele dia em diante tentaria transformar o inferno em um lugar mais atraente para malfeitores. E assim, contratou os serviços de um publicitário conhecido simplismente como, Dudu, para a tarefa de criar a nova imagem do inferno.
Decidiu também que precisaria de um sistema de comunicações para vender esta nova visão do inferno, e que por isso criou a Rede Global de televisão para a função. Como primeira medida, foi aconselhado a assegurar uma certa porcentagem de vagas infernais para certos grupos racias. E assim foi criado o modelo de cotas raciais para que todos pudessem ter também seu próprio espaço no inferno, aumentando principalmente a parcela destinadas aos índios e negros. Também não se falaria mais em exclusividade infernal, pois daquele momento em diante, desembargadores e juízes das altas cortes do inferno, andaria de ombro a ombro com os militantes do movimento sem terra do inferno (MSTi). Sim, o MSTi também teriam o seu lugar nas chamas eternas, e o que é melhor, sem precisar transformar o inferno em uma república socialista, pois no inferno, ambas são consideradas sinônimas.
Para atrair todos os malfeitores prometeu também facilitar a concessão de habeas corpus, assim como conceder foro previlegiado para os políticos corruptos, sendo julgados somente pelo Supremo Tribunal Infernal, principalmente a políticos que não vêem, ouvem ou não sabem de nada. Mas como a maldade tem limites, até mesmo para Lúcifer, ele recusou uma proposta macabra de seu publicitário infernal para que seu ministério de turismo iniciasse uma campanha publicitária, transformando o inferno em um paraíso sexual, que atrairia depravados sexuais europeus e norte-americanos para passarem suas férias abusando de mulheres e garotos no inferno.
Mas Lúcifer, mesmo com toda sua experiência adquirida infernizando a vida de toda a humanidade no decorrer de sua história, tinha ainda pela frente seu maior obstáculo. Como, perguntava-se assim meu angustiado, conseguirei convencer sociopatas e psicopatas a partirem para o inferno? Como posso competir com leis mais diabólicas que as vigentes na Pizzaria onde juízes são instruídos a darem mais importância a um grão de areia do que a praia, e onde o sistema judicial garanta a sociopatas, psicopatas e outros criminosos (principalmente a menores de 18 anos) a segunda, terceira, quarta, enfim, quantas chances forem preciso para mantarem, estruparem, torturarem ou venderem drogas?
Lúcifer deu-se finalmente por vencida sua tentativa de manter as portas do inferno abertas, pois para isso necessitaria de uma “consciência” dos direitos humanos como aquela existente na Pizzaria, mas isso não se encaixaria na estrutura luciferiana. Mas como diz o ditado, se não pode vencer seu concorrente una-se a ele. Lúcifer fechou as portas do inferno e partiu de vez para um curso de pos-graduação na Pizzaria, pago naturalmente por uma ONG …