A pessoa como base para a ética.

 Na ala de embarque do aeroporto international de Guarulhos, ainda com uma forte dor no coração por estar, mais uma vez me separando das pessoas e do país que tanto amo, alcanço o jornal O Estado de São Paulo recém comprado. Leio que o ator Paulo Betti durante um jantar de apoio a Jose Dirceu, entre outros auto-nomeados intelectuais do partido dos trabalhadores, afirma todo seguro de si, que o mensalão era justificável pois, raciocina o inteletual petista, quem entra na política brasileira não tem como não sujar as mãos.  Esta declaração me revolta mas me trás a lembrança uma anedota entre teólogos, que diz que o caminho mais fácil de se perder a fé é estudar teologia. Situação análoga, creio eu, vive o cidadão brasileiro ao tentar aprender princípios básicos de ética na política brasileira.  Mas não vou usar minha revolta a respeito da falta de ética na política brasileira como um narcótico para me auto-convencer da minha superioridade moral. Poderia correr o risco de me embebedar com um paroxismo de imputações levianas da qual nehuma veracidade se exigiria. Este erro já foi cometido pelos que devidem o palanque com o senhor Paulo Betti.  

Me permitam, entranto, de postular uma linha de pensamento teológico, que creio eu, forneceria algumas ideas para a análise deste tópico. Entre as verdades do pensamento católico contemporâneo está a distinção entre o indivíduo e a pessoa. Refletindo sobre trabalho de Tomás de Aquinas, professor da igreja e santo católico, o filósofo católico francês Jacques Maritain (A pessoa e o bem comum, 1947) nos ensina que como indivíduo, cada um de nós é um fragmento de uma espécie, parte do universo, e sujeito ao determinismo do mundo físico ( com seu sistemas políticos e econômicos). Nos ensina também que como pessoa (considerando o grau de perfeição com qual esta pessoa com sua própria capacidade se aproxima­ de Deus) a criatura intelectual é capaz de uma bondade suprema, se aproxima mais da perfeição e da graça divina do que o universo em sua totalidade. Por isso sozinho, o ser humano foi criado a imagem de Deus. Todo o nosso ser existe na virtude da subsistência da alma espiritual, a qual é em nós um princípio de unidade criativa, de independência, de responsabilidade e de liberdade.  

 

Infelizmente, a compreemsão correta deste ensinamento é muito difícil de se alcançar e requere um exercício de visão metafisica na qual a mente contemporâneo é mal acostumada, como prova com extrema facilidade o intelectual petista, Paulo Betti.  

No entanto, Jacques Maritain declara categoricamente que cada um de nós é também uma pessoa e que a decadência ética é resultado da concepção materialística do mundo e da vida. Filosofias que não reconhecem os elementos espirituais e eterno no homen, afirma Jacques Maritain, não podem escapar de erros na construção de uma verdadeira sociedade humana. Isso ocorre simplismente porque as necessidades da pessoa não são satisfeitas, e por esse mesmo fato, estas filosofias materialisticas não entendem a natureza da sociedade.  Cego a realidade do espírito e respondendo somente a filosofias materialísticas o indivíduo Paulo Betti expressou a decadência ética na qual vive o Brasil. Esta situação de decadência ética trás consigo mais riscos para o conceito pessoa do que se possa imaginar.

Esta decadência põe em perigo a pessoa humana, explica Jacques Maritain, dissolvendo-a em anarquia ou simplismente como acontece inexoravelmente depois da pressão política de necessidades, submetendo-a ao desejo do sistema político-econômico regente, tranformando-a em um número, em um indivíduo. Nessa condição, a pessoa e forçada a transferir sua responsabilidade e o rumo de seu destino para o estado (leia-se elite política). Consequentemente a pessoa fica limitada em suas ações. A pessoa não oferece uma reação de imediato pois esta sobre a impressão que sua liberdade ainda não foi atingida. Naturalmente, que este senso de liberdade é uma ilusão. Ao mesmo tempo a pessoa irar exigir do estado a satisfação de suas cobiças e também rejeitará as condições da vida social de forma anárquica. Desta forma, conclui Jacques Maritain, a pessoa se isolaria em seu egoísmo ou em sua incapacidade de reagir em detrimento da sociedade como um todo. Assim in caminhos diversos, tudo que é próprio de um ser humano como uma pessoa e para a sociedade em que vive, é destruído. 

Jacques Maritain afirma que a sociedade sofre com erros do individualismo, da decadência política, e principalmete da falta de responsabilidade de cada um de nós. Nós testemunhamos o aparecimento de uma sociedade corrupta e com conceitos comunal exclusos que se desenvolvem através de reações e do egoísmo. Uma mudança radical é o desejo de mulheres e homens de bens em todo o nosso país.  

Mas não a este preço estabelecido por políticos charlatões que inundam as candidaturas partidárias atuais e por pseudo-intelectuais que se beneficiam da ignorância da maioria da população brasileira para expressar seus conceitos vazios. Esperamos sim, como postula Jacques Maritain, uma mudança através da integração sociológica de toda a consciência cívica, de virtudes políticas e um senso de liberdade e do direito, de prosperidade material e riqueza espiritual, de uma moral correta, de justiça e de responsabilidade pessoal nas ações individuais de membros na nossa sociedade. Estas coisas constituem, de uma certa forma, a vida das multidões. Não desejavamos somente um sistema de vantages e utilidades mas de um sistema planejado, responsável e bom em si mesmo, como diziam os anciões, bonum honestum 

Um sistema aonde virtudes como a justiça, a responsabilidade pessoal e a ética não se tornem vítimas, e sim, caraterísticas essenciais a serem assumidas, defendidas, integradas e colocadas em prática por brasileiros, mesmo que indivíduos como o intelectual petista Paulo Betti, não entederem a importância e a essência das mesmas no desenvolvimento da pessoa humana, e consequentemente, de uma nação.

O eufenismo liberal é o canto moderno da sereia.

Os fogos de artifícios iluminam o céu escuro comemorando a chegada do ano novo. Diante da janela da sala olhando em direção as águas do canal próximo entre as árvores defloradas e os flocos brancos de neve caindo, meu convidado parece se impressionar com o que vê. Com o sorriso lhe traindo, se encanta como se fosse um dos 40 sindicalistas “aloprados” no seu primeiro dia de poder no Palácio da Alvorada.
Vira-se, e com uma expressão de curiosidade ainda visível em seu rosto, faz um gesto me convidando a aproximar. Mesmo sem o poder da vidência tive um pressentimento muito forte de que não foi a beleza da neve, do canal ou dos fogos de artifícios que o levou a tal reação. E que, sobre as águas do canal perto de minha casa, encontra-se os barcos das prostitutas, cerca de 100 em todo, que em linha reta, formam uma vista que sem dúvida nenhuma impressionaria à qualquer pessoa, como prova a expressão facial do meu convidado. Atraído pelas luzes neon dos barcos, ele observa homens dentro de seus carros observando uma mulher semi-nua em movimentos sensuais, que por sua vez, observa com o estoicismo desenvolvido pela dura realidade de sua vida, o que a “liberdade” lhe oferece. Talvez traído pela inocência dos seus anos, ele se diz contente de poder estar em um país onde a “liberdade” seja onipresente.

Talvez por isso me pergunto se uma outra mulher, descrita intencionalmente como um símbolo maior da Liberdade, com uma educação clássica, armada com o conhecimento contra a neblina da paixão e a escuridão da ignorância, bem vestida, disciplinada, com objetivos claros e séria em aparência, provocaria a mesma reação em meu jovem convidado. Pois esta senhora Liberdade que o educação católico Michael Novak (comentando sobre o seu livro “The Hunger for Liberty”, 5/18/2005) descreve é primeiramente um atributo do espírito invariável, do intelecto, da luz da razão e consequentemente da ética. A ética por sua vez, afirma Novak, forma um elemento essencial da humanidade, que a todos interessa, pois é nela que o significado das questões, dos limites, das expectativas da vida se manifesta. E é exatamente nessas questões marginais da vida que corremos o risco de nos deixar ser manipulados pelo canto da sereia do eufemismo da elite fundamentalista “liberal” que, através de sua força sedutora e enganadora, anestesia as nossas percepções éticas, inibindo as nossas reações, fazendo nos sentir culpados por discordar, criando um ambiente onde tudo, repito, tudo faz parte do normal e do aceitável.

Para um exemplo prático de uma situação marginal, nada melhor que residir no país mais “liberal” do mundo: Holanda. Sobre o pretexto de garantir os “direitos humanos” (em si outro eufemismo) dos homossexuais, e utilizando o eufemismo “orientação sexual” como base, o parlamento holandês aprovou alguns anos atrás o casamento de pessoas do mesmo sexo. O que me interessa aqui é a agenda oculta do eufemismo liberal, sua capacidade enganadora embutida em si, capaz de um mal maior do que primeiramente observado. E que, através de uma interpretação secundária desta mesma lei, os juízes holandeses garantiram aos pedófilos o direito de se organizarem politicamente. Hoje, a Holanda é o primeiro país no mundo com a vergonhosa (adjetivos mais adequados me falham nesse momento)  posição de ter um partido político (não representado no parlamento) cuja função única e exclusiva é a proteção dos “direitos humanos” de pedófilos de exercerem sua “orientação sexual”. Para uma pessoa de bom senso outro exemplo não seria necessário.

Por isso, onde a “liberdade” se torna o símbolo “eufêmico” maior das sociedades liberais, a Liberdade simplesmente não existe mais. Ela se tornou vítima da ausência de todas as restrições dentro da alma dos homens e mulheres livres. Esta ausência de restrições, afirma Novak, não é sinônimo de civilização, mas sim de barbarismo, e a liberdade que é internamente desorganizada não é liberdade, mas sim niilismo. A liberdade individual não significa libertinagem pois o nosso senso de moralidade não deve ser baseado no instinto animal de nossa espécie ou de distúrbios psicológicos, dependendo exclusivamente de circunstâncias variáveis, transformando-se em algo relativo. Em uma sociedade verdadeiramente livre a Liberdade é sobretudo uma idéia incorporada. Para Novak, a liberdade é baseada sobre um corpo de discernimentos, mas que não deve ser meramente comunicada através de conceitos abstratos, mas sim profundamente incorporada nos nossos próprios hábitos e experiências. Este corpo de discernimentos, afirma Novak, deve ser redescoberto em cada geração, sem coerção, pois é somente em um ambiente em que a escolha é possível é que os homens aprendem exercitar sua Liberdade em uma maneira responsável e dissipada através das instituições sociais como a família e as igrejas, que ensinam (ou deveriam pelo menos ensinar) e promovem os hábitos e as tradições da ação ética. Mas a ética por sua vez também precisa de um fundamento invariável, imutável que nos leve a plenitude de uma liberdade responsável. A questão da ética refere-se em sua vez a Verdade Absoluta: Deus. E é na importância dessa Verdade que o valor de todo ser humano vem inteiramente a ser apreciados, tornando-se verdadeiros filhos da Liberdade.

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