Che bello!…me arrisco a dizer em um italiano assim meio inseguro ao ver o esplendor da imponente catedral Milanesa a um amigo italiano. Com a sua majestosaarquitetura gótica o Duomo di Milano simplesmente me encantava. Nem o sol escaldante ou mesmo o barulho produzido pelo elevado numero de turistas e de vendedores ambulantes na praça principal de Milano poderiam me negar aquele momento de admiração a inextinguível capacidade humana de criação.
Mas assim como Eramus de Rotterdam, eu também me dei conta que a tolice é a eterna promesa humana. Com os meus olhos me traindo, percebo que a pouca distancia de mim uma senhora cigana “ensina” a sua própria filha a mendigar, negando-a o direito de se desenvolver ao máximo de suas potencialidades, compromentendo assim seu futuro. Com a idade na qual ainda não é sequer possível compreender o conceito do tempo (o ontem, o hoje e o amanha) a criança encontrava-se em uma situação de exploração e constregimento. Obviamente não dava-se conta da exploração ou do constrangimento por qual passava, pois seu instinto de sobrevivência lhe forçava a criar mecanismos de defesa (e.g., criando uma falsa realidade ao bloquear a verdade realidade através de uma barreira psicológica) para lidar com tal situação de abuso psicológico (e/ou físico). Constrangido ficaram só os meus conceitos burguês de moralidade. Ao tentar fugir da realidade “cruel” e “suja” na qual me encontrava, escondi-me atrás de uma raciocínio moralmente suspeito: se não vejo nada, posso concluir que também não sei de nada. Decidi, então, entrar rapidamente no Duomo e percebi que o ar estava mais fresco e a paisagem mais “limpa”, trazendo consigo a percepção de que a “normalidade” fora restabelecida. Estranho, mais naquele momento me senti, pelo mesmo por alguns instantes, como o supremo mentecapto petista (apesar de conhecer o valor dos estudos, não haver uma aposentadoria prematura, não tomar cachaça e não andar de avião de 400 milhões de reais). Agora eu sei como se senti o cidadão da terra das “mil e umas noites”. Tudo isso porque simplesmente eu decidi ignorar o problema da ciganinha. Mas na defesa deste pobre burguês atordoardo por questões morais, sei que não seria justo exigir de mim uma solução para este problema social italiano. Isto exigiria um conhecimento muito além de minhas possibilidades, reconheço em minha própria defesa.
Posso e vou, entretanto (um ato de auto-protecao e/ou auto-interesse), me envolver com os problemas de uma outra “criança” que conheço. Pelo menos e como nós, eleitores uruaçuense, somos tratados pelos nossos políticos. Nós, cidadãos uruaçuense, somos anologicamente falando, como aquela criança cigana na porta do Duomo de Milano. Somos forçados a “mendigar” por nossos direitos, e somos consequentemente, expostos a um constrangimento constante pela limitações da presente lista de pré-candidatos a prefeitura e a câmara municipal para as próximas eleições. A nossa escolha (o que de fato não é um escolha) é quase sempre entre o “sujo” e o “mal lavado”. O problema é que a nossa atitude política é formada por nossas experiências, forjadas durante a interação entre nós, eleitores, e a “classe” política durante o processo eleitoral. Temo que com a presente lista de pré-candidatos dentro do processo sucessório 2008 que a nossa atitude política continuara a mesma, pois a classe política quase sempre atrai pessoas com características semelhantes. Em meio a tanta sujeira, não posso deixar de ver (talvez um auto-mecanismo de defesa, como a criança cigana) o humor e a ironia desta situação. Veja bem, a ironia é caracterizada por subverter o símbolo que, a princípio, representa. Ela utiliza-se como uma forma de linguagem pré-estabelecida para, a partir e de dentro dela, contestá-la. Uma das definições da palavra candidato, oriunda do latim candidatu, significa simplesmente, “aquele que aspira dignidade”. A lista de pré-candidatos a prefeitura e a câmara municipal em Uruaçu é o paradigma máximo desta ironia (apesar de toda regra ter sua exceção, e aqui não poderia ser diferente), e como se isso já nao fosse suficiente, é também um produto de uma aberração filosófica. Pré-candidatos postulam quase que abertamente um hedonismo político (uma versão intelectual da nossa conhecida Lei Gerson) cujo o dictum declara a maxima vantangem para poucos, devendo ser imediata e também o supremo bem da vida política (uma versão atrofiada e totalmente corrompida daquele famoso dictum postulado pelo filosofo liberal Jeremy Bentham, um dos defensores do utilitarianismo). Pressupondo que a apatia profunda na política uruaçuense (simplesmente um retrato minúsculo da política nacional, como prova a absolvição do senador Renan Calheiros) continuará por um bom tempo, temo que teu futuro, Uruaçu, seja idêntico ao da ciganinha milanesa. Uma pena, pois vocês simplismente mereciam um futuro melhor.